Mas afinal o que é que é isto de incubadora artificial?
Para quem não o sabe ainda, uma incubadora artificial é uma ferramenta utilizada para fazer eclodir/desenvolver ovos fecundados de ciclídeos africanos incubadores bocais.
Este conceito de incubadora artificial pode não ser consensual, até porque os mais puristas poderão não estar de acordo com a sua utilização. O que é certo é que em determinadas situações, pode ser uma ferramenta útil de ter por casa. Pessoalmente não me parece que seja boa ideia utilizar a incubadora artificial numa base continuada; podemos e devemos utilizá-la em casos especiais... o melhor mesmo é deixar os peixes fazerem este trabalho de incubação bocal.
Ocasiões onde me parece oportuno utilizar a incubadora artificial:
I. Em aquário, por muitos esconderijos ou refúgios que possamos criar as fêmeas raramente conseguem escapar da pressão que os machos exercem sobre elas para desovarem. Com isto, por vezes as fêmeas ainda estão muito magras e já estão novamente a incubar. Com esta ferramenta podemos dar-lhes uma ajuda incubando os ovos artificialmente, possibilitando assim que as fêmeas comecem a alimentar-se de novo mais cedo.
II. Sempre que seja necessário enviar/transportar peixes e estão incubações a decorrer, não é aconselhável nem para os ovos nem para as fêmeas transportá-las nesse estado. Com isto, restam-nos duas opções: adiámos o transporte ou tirámos os ovos às fêmeas. Se optarmos pela segunda opção, porque não incubar os ovos artificialmente, depois de já os ter retirado da boca das fêmeas?
Após estas primeiras considerações, vou a seguir tentar demonstrar passo-a-passo, como construí uma incubadora artificial, com materiais que se encontram por casa.
Os materiais que utilizei foram os seguintes:
1. Um biberão que foi usado pelo meu filho, nos seus primeiros meses de vida.

A particularidade deste biberão, é que o seu fundo é roscado no corpo do biberão.
2. Uma meia de "vidro", que fui buscar à gaveta da minha esposa.

3. Uma bomba de ar com uma pedra difusora e com uma válvula para regulação do caudal do ar.

4. Ventosas que todos nós acabamos por ter sempre por casa.

Posto isto, mãos à obra.

A intenção aqui foi furar quer a tampa quer o fundo do biberão de modo a que a água circule pelo seu interior.
Aqui está o resultado final:
A tampa

O fundo

No fundo, foi também necessário executar um furo de maior diâmetro de modo a passar a mangueira da bomba de ar.
Depois de limpar todas as aparas de plástico que ficaram sobre a mesa, vamos passar à montagem. A primeira coisa a fazer é colocar a meia; na zona frontal do biberão, estiquei a meia o mais possível, de modo a criar uma superfície direita, mas que deixe circular a água com facilidade. Depois da meia bem esticada, rosca-se a tampa do biberão (onde normalmente se colocam as tetinas), que desta forma bloqueia a meia na boca do biberão.

É depois necessário cortar a meia em excesso.
Posto isto, passa-se a mangueira da bomba de ar pelo fundo do biberão de modo a que a pedra difusora fique no seu interior; coloca-se a tampa já furada na zona frontal; prende-se o conjunto à ventosa por meio de um elástico. E este é o resultado:

Chegando aqui, só falta experimentar! Molhar as mãos e tal... e cá está:

Vamos então falar do princípio de funcionamento. Os ovos devem ser colocados no interior do biberão. Esta operação é muito sensível, quer pela própria sensibilidade dos ovos quer pelo facto desta transferência ter de ser realizada dentro de água, visto que os ovos não devem contactar com a atmosfera.
Os ovos ficarão então em repouso sobre a "plataforma" criada pela meia de vidro.
A tampa frontal perfurada tem como função deixar a água circular em direcção aos ovos, e principalmente evitar que estes estejam à mercê de peixes adultos, que facilmente os sugariam através da meia de vidro.
A bomba de ar com a pedra difusora vão criar uma pequena turbulência no interior do biberão, sendo que o fundo do biberão foi furado precisamente para que tanto o ar como a água circulem para o exterior sem grandes obstruções.
O resultado é então, uma água bem oxigenada no interior do biberão, assim como uma ligeira agitação dos ovos; esta agitação resulta quer pela turbulência gerada quer pela ligeira corrente ascendente criada pela saída do ar para o exterior do biberão.
Esta agitação dos ovos pode ser controlada quer pela válvula da bomba de ar, quer pela maior ou menor introdução da pedra difusora no interior do biberão.
Posto isto só será necessário estar atento ao desenrolar da situação, no sentido de retirar ovos que eventualmente não estejam fertilizados, e que ao ganhar fungos possam colocar em risco os restantes ovos.
Para terminar, duas fotos distanciadas de uns dias, em que é possível verificar o desenvolvimento dos ovos:

E passados uns dias:

Este artigo terminaria aqui, mas não queria deixar de abordar ainda duas questões:
- Tirar alevins vs tirar ovos da boca das fêmeas. É claramente mais fácil tirar os alevins, e por vários motivos. As fêmeas com alevins já estão cansadas/desgastadas com todo o tempo da incubação e libertam-nos mais facilmente; a própria agitação dos alevins já formados, ajuda à sua saída. Para tirar os ovos, é preciso mais paciência... mas também saem! Pessoalmente o que faço é levar a fêmea num tupperware para um local com pouca luz, e de uma forma espaçada vou pegando na fêmea com as mãos (molhadas), sem lhes tentar abrir a boca; depois de fazer isto umas 3 ou 4 vezes, começo então a tentar abrir-lhes a boca, não usando nada para o efeito; prefiro usar as mãos, para ter mais sensibilidade. Com paciência e cuidado os ovos acabam por sair.
- Naturalmente este conceito de incubadora artificial não foi inventado por mim. Este tipo de ferramenta existe inclusivamente à venda, bastando pesquisar no ebay por "Egg Tumbler". Existe também dispersa pela web muita informação sobre possíveis formas construtivas. A única coisa que fiz, foi aproveitar o conceito/princípio de funcionamento e adaptá-lo ao material que tinha em casa... um pouco de imaginação!
Para finalmente terminar, resta-me esperar que este texto vos venha a ser útil, e que tenham gostado de o ler.
Abraço!