1. Introdução
Callochromis pleurospilus (Boulenger, 1906) - por onde começar, com tanto para dizer sobre este fantástico ciclídeo.
Esta é uma espécie endémica do Lago Tanganyika, que se encontra dispersa em redor de todo o Lago, sendo muito abundante nos fundos arenosos do litoral.

Callochromis pleurospilus – Jovem macho
O género Callochromis contempla além dos C.pleurospilus, os C.straperssi, os C.macrops e os C.melanostigma, sendo as duas primeiras espécies de menor dimensão, com cerca de 10 a 11cm de comprimento e as duas restantes, maiores com cerca de 15cm de comprimento.
2. O habitat no Lago
Os Callochromis pleurospilus, são normalmente encontrados em grande número nas zonas costeiras de baixa profundidade, num habitat que podemos designar por “Fundo arenoso rico em sedimentos”. Este habitat situa-se em profundidades nunca superiores a três metros e é caracterizado por uma mistura de areia, lama e algumas rochas. A presença de plantas aquáticas é também comum neste habitat, podendo-se destacar de entre outras, a Vallisneria spiralis e a Ceratophyllum demersum. Este habitat surge em zonas costeiras com alguma inclinação e encontra-se normalmente em baías onde rios desaguam, pelo que tanto o substrato como as rochas são continuamente cobertos por sedimentos arrastados pelos cursos de água dos rios. Dada a presença de rochas e plantas aquáticas muitos ciclídeos são aqui encontrados, para além dos Callochromis pleurospilus, são aqui encontradas as restantes 3 espécies do género Callochromis e também Ctenochromis horei, Simochromis babaulti, Simochromis diagramma, entre outras.
3. Morfologia, coloração e dimorfismo sexual
Os machos Callochromis pleurospilus atingem um comprimento em adulto entre os 10 e os 11cm, ficando-se as fêmeas pelos 6 a 7cm. O corpo é alongado e ligeiramente espalmado, os olhos são ovais, sendo a cabeça ligeiramente pontiaguda, para que a possam enterrar na areia de forma a se alimentarem.
Esta espécie apresenta diferentes formas geográficas, que se centram basicamente em pequenas variações na coloração dos machos. De uma forma geral, os machos são uma verdadeira explosão de reflexos coloridos:
- O corpo é bege claro, sendo a sua parte superior salpicada de azul e atravessada a meio por uma banda dourada;
- A cabeça é prateada com reflexos azuis, sendo também os lábios de cor azul;
- Os olhos são atravessados por uma barra negra, mais visível sempre que o peixe esteja sobre stress ou excitado;
- As barbatanas apresentam um leve tom rosa, exceptuando a barbatana
dorsal, que além do rosa apresenta umas manchas e uma linha com um tom avermelhado.
Por seu lado, as fêmeas são completamente prateadas com alguns reflexos azuis.

Callochromis pleurospilus Macho – sempre que excitado é visível uma barra negra a atravessar os olhos
4. Comportamento, alimentação e reprodução no Lago
Esta espécie forma no Lago grandes cardumes tal como as restantes espécies arenícolas de pequena dimensão.
Os Callochromis pleurospilus apresentam uma alimentação carnívora; verificou-se após análises que apresentam um tubo digestivo curto (cerca do mesmo comprimento que o comprimento do peixe), tendo-se encontrado no seu interior grãos de areia misturados com diversos elementos orgânicos, larvas de insecto, detritos de pequenas conchas, vermes, ovos de ciclídeos, e pequenos fragmentos de peixes maiores. Pode-se dizer que se alimentam de tudo aquilo que conseguem filtrar da areia.

Callochromis pleurospilus Fêmea – filtragem do fundo arenoso
Os Callochromis pleurospilus são incubadores bocais maternais e a desova ocorre em ninhos construídos na areia pelos machos próximo de rochas ou plantas aquáticas. No Lago os ninhos desta espécie com cerca de 15cm de diâmetro são encontrados na sua grande maioria a cerca de 2m de profundidade encontrando-se separados por 2 a 3 metros de distância uns dos outros. Qualquer macho que se aproxime do ninho de outro é vigorosamente afastado. Os ninhos são ligeiramente projectados em altura sobre o fundo arenoso de forma a que se tornem mais visíveis pelas fêmeas, que normalmente se encontram muito próximas do fundo. As fêmeas adultas encontram-se normalmente em cardume e próximo de plantas aquáticas ou rochas no sentido de aí obterem protecção.
Os machos tendem a cortejar e a induzir, de forma vigorosa, as fêmeas para desovarem. A desova ocorre quando uma fêmea após induzida pelo macho entra no seu ninho. O macho inicia então uma dança, agitando a barbatana anal com grande velocidade, de modo a que o seu ocelo alaranjado aí presente se assemelhe a um ovo em 3 dimensões no centro do seu ninho. A fêmea começará então a depositar os ovos, recolhendo-os de seguida na boca após o macho os ter fertilizado. As fêmeas Callochromis pleurospilus podem gerar entre 15 a 50 ovos, que serão incubados, normalmente ao longo de 21 dias. Durante este período, as fêmeas tendem a esconder-se entre as rochas e as plantas aquáticas de forma a salvaguardarem-se do assédio constante dos machos. Após largar os alevins, estes não serão alvos de qualquer cuidado parental.
5. A minha experiência
Desde que me iniciei na aquariofilia que os ciclídeos do Lago Tanganyika se afirmaram como a minha grande paixão. Iniciei-me tal como a maioria das pessoas, pelos pequenos Lamprologus conchícolas e pelos pequenos Cyprichromis, até que surgiu a hipótese de adquirir uma bela espécie arenícola do Lago, que apenas conhecia de fotografias – Callochromis pleurospilus.
Recebi 4 jovens indivíduos, um macho e 3 fêmeas, e coloquei-os num aquário com dimensões 120x40x50cm, juntamente com um pequeno cardume de Cyprichromis leptosoma “Mpulungu” e um trio de Lamprologus caudopunctatus. Desde cedo se verificou, que a nível inter-específico os Callochromis pleurospilus, não desenvolvem uma agressividade significativa. Pura e simplesmente tendem a ignorar os companheiros de aquário, assim como os seus territórios. No entanto, sempre que entram em território alheio aceitam sem ripostar as afirmações territoriais das restantes espécies e afastam-se.

Callochromis pleurospilus Macho – filtragem do fundo arenoso
Se há local no aquário de onde os Callochromis raramente se afastam, esta é a zona ampla e aberta de areia que criei aquando da definição do layout do aquário. Isto é imprescindível para a manutenção desta espécie em aquário; deve ser garantida uma área livre com dimensões mínimas de 40x40cm, com areia de muito fina granulometria e sem arestas, no sentido de não ferir a boca e as brânquias dos Callochromis aquando da sua filtragem. O ideal é utilizar areia da praia ou areia das obras bem lavada; a areia que utilizei é precisamente areia das obras, de muito fina granulometria e de base calcária e os resultados foram óptimos. Será aí que os Callochromis irão passar grande parte do seu tempo, dedicando-se à filtragem do substrato arenoso. Basicamente esta operação de filtragem, consiste em enterrar a cabeça na areia, engolindo tudo o que conseguirem; tudo o que seja alimento será verdadeiramente engolido, expelindo depois a areia excedentária pela boca assim como pelas brânquias. O curioso é que a ideia que transmitem é que esta filtragem lhes dá tremendo gozo, dada a forma frenética e continuada com que o fazem. Em pouco menos de um dia todo o fundo fica completamente picotado com umas pequenas covas resultantes desta actividade.
Desde o início, que não restaram dúvidas sobre a identificação do macho no aquário; este apesar de jovem já revelava alguns reflexos coloridos e era sem dúvida o mais activo e corpulento de todo o cardume. Com as fêmeas também não restaram grandes dúvidas, quer pela pouca ou mesmo nenhuma presença de cor sobre os seus corpos prateados, quer pelo facto de andarem praticamente sempre em cardume e com um comportamento menos activo. No entanto aqui poderiam restar algumas dúvidas, que só o tempo poderia desfazer, visto poder estar presente um jovem macho dissimulado no pequeno grupo.
A presença de mais do que um macho no aquário deve ser evitada a todo o custo, dada a grande agressividade intra-específica que esta espécie evidencia entre machos. Irá naturalmente surgir um macho dominante que se tornará exuberante nas cores e no comportamento, e que tenderá a anular toda a possível concorrência. É possível que por vezes os machos tentem lutar “boca com boca” conforme o fazem a maioria dos Lamprologus, mas dada a morfologia das suas bocas, raramente conseguem manter este tipo de combate por muito tempo. Invariavelmente o macho dominado será constantemente perseguido e encostado a um canto do aquário, apresentando umas manchas escuras sobre o corpo resultantes do stress a que se encontra sujeito. Estas perseguições serão contínuas, e pode inclusivamente chegar a um ponto em que o macho dominado possa cair morto, não por feridas originadas por agressões, mas por exaustão e stress. Entre fêmeas é possível que surjam algumas pequenas escaramuças, mas normalmente estas são mais pacíficas e tolerantes.
Outro comportamento que levou, desde o início, à fácil identificação do macho dentro do pequeno cardume, foi a grande insistência que este desde cedo revelou ao tentar induzir as fêmeas para a desova.

Callochromis pleurospilus Macho – o inicio da corte à fêmea
Nos machos Callochromis pleurospilus esta acção é levada a cabo quase numa base contínua, e daí ser importante manter o maior número de fêmeas possível no sentido desta pressão ser distribuída e não se transformar num massacre sobre uma só fêmea.
O macho iniciou esta sua actividade sexual construindo o seu primeiro ninho; esta construção é bastante rápida, e para tal o macho enterra o maxilar inferior sob a areia com a boca aberta, e com uma agitação rápida do corpo e da barbatana anal arrasta a areia à sua frente tal como um “bulldozer”. Esta operação é realizada partindo do centro para o exterior do ninho e resultará numa cova com areia empilhada em altura no exterior, formando assim um anel projectado em altura. Este ninho é construído em menos de 10 minutos e vai sendo aperfeiçoado com o decorrer da corte à fêmea.

Callochromis pleurospilus – a desova
Ao longo da sua permanência no aquário, o macho irá construir uma grande quantidade de ninhos em diversos locais, podendo chegar ao ponto de ter mais do que um em simultâneo. Após o ninho estar construído, o macho inicia então a sua actividade de sedução, e é um belo espectáculo de se ver.
O macho começa a rondar a fêmea tentando restringir a sua movimentação, levando-a para a zona onde o ninho está construído. Aí chegados o macho inicia uma dança, agitando freneticamente a sua barbatana anal de encontro à fêmea, tentando assim induzi-la a entrar no seu ninho e iniciar a desova. Esta situação pode-se arrastar durante vários dias, até que e fêmea estando em condições de desovar acaba por ceder aos intentos do macho, entrando no seu ninho e dando inicio à desova.

Callochromis pleurospilus – a desova
Durante a desova a fêmea praticamente não sairá do interior do ninho, enquanto que o macho de quando em quando saíra do mesmo para afastar qualquer peixe que se aproxime em demasia. A desova propriamente dita é realizada por meio de movimentos circulares feitos tanto pela fêmea como pelo macho no interior do ninho. A Fêmea vai depositando os ovos, de modo que o macho os fertilize libertando o seu esperma; logo na primeira oportunidade a fêmea recolhe os ovos na boca de modo a iniciar a incubação.
Dada a grande insistência do macho em afastar qualquer intruso, a desova não acontece de uma forma fluida, mas acaba por acontecer por impulsos. Este processo poderá durar entre os 30 e os 60 minutos.
A desova termina sempre com a fêmea a afastar-se do ninho, e o macho a persegui-la no sentido de a manter próxima de si para continuar. O macho demorará um bom bocado a aperceber-se que a desova terminou, e continuará assim a maltratar a fêmea que apresentará nessa fase o corpo com as manchas negras típicas do stress a que se encontra sujeita.

Callochromis pleurospilus – a incubação
É pois importante ter alguns esconderijos e algumas plantas aquáticas para que as fêmeas se possam recolher e ter algum sossego durante a fase de incubação. Esta irá ocorrer ao longo de cerca de 3 semanas, e mesmo nesta altura a fêmea vai sendo sujeita a uma certa pressão por parte do macho.
As fêmeas Callochromis pleurospilus raramente deixam de levar uma incubação até ao final, e quando as 3 semanas são atingidas acabam por largar os alevins.

Callochromis pleurospilus– alevins com cerca de uma semana após o final da incubação
Após largar os alevins as fêmeas procurarão avidamente por comida dadas as 3 semanas que passaram sem se alimentarem. Dada a pressão a que são sujeitas por parte do macho, em breve irão de novo desovar, ficando assim mais 3 semanas sem se alimentarem. Após algumas desovas, as fêmeas apresentam uma magreza bem visível, pelo que será conveniente de quando em quando retirar as fêmeas em incubação para um outro aquário, para que aí possam largar os alevins, e serem alimentadas convenientemente durante uma temporada.
Em média, uma fêmea adulta larga cerca de 20 a 25 alevins, não lhes prestando qualquer tipo de protecção após o final da incubação. Se os alevins forem recolhidos para um aquário maternidade a taxa de sobrevivência será bastante elevada. Os alevins, com um comportamento muito activo desde o início, nascem muito pequenos com cerca de 1cm, e o seu crescimento será relativamente lento. Por volta dos 6 meses de vida os jovens Callochromis pleurospilus irão medir entre 3 a 4cm e começa a ser possível identificar pequenos machos no cardume. Por volta dos 9 meses poderão atingir uns 6cm de comprimento e é também por esta altura que as primeiras desovas começam a ocorrer.
Um comportamento curioso que se verifica nesta espécie consiste num seu método de fuga/camuflagem. Se assustados, e sem locais à vista para se refugiar, os Callochromis pleurospilus simplesmente mergulham na areia do substrato e desaparecem enterrando-se. Só quando pressentem que o perigo deixou de existir é que voltam a surgir à superfície do substrato. Devemos ter em consideração este comportamento, pois se não tivermos atenção ao mexer no layout do aquário, poderemos sem o saber estar a colocar uma rocha sobre um peixe escondido sob o substrato.
Faltou dizer que no que diz respeito à alimentação os Callochromis pleurospilus não são nada esquisitos. Sendo a sua alimentação de base carnívora, desde o início foram alimentados com um granulado para discos de uma conceituada marca de produtos para a aquariofilia. Por vezes, e como guloseima, foram também alimentados com artémia congelada.
6. Conclusão
Quer pela sua beleza quer pelo seu comportamento exuberante esta é uma excelente espécie para introduzir em aquários comunitários dedicados aos Ciclídeos do Lago Tanganyika.

Callochromis pleurospilus –macho adulto
Se nos fixarmos sobre os ciclídeos arenícolas do Lago Tanganyika, esta uma das espécies mais resistentes e que se mantida nas melhores condições se torna bastante prolifera.
Se ainda não o fizeram, dediquem-se a manter esta espécie e com certeza não ficarão desapontados.
Bibliografia
Konings, Ad, 1998, Tanganyika Cichlids in their natural habitat, pp. 243-247, Cichlid Press