O genero Julidochromis é desde sempre um dos mais populares na ciclidofilia do Lago Tanganyika. E conhecendo as espécies que o compõem facilmente se percebe porquê. Tratam-se de peixes muito particulares quer na forma, nas cores e também no comportamento. São sem sombra de dúvidas um dos géneros mais interessantes e mais enraizados no hobbie.
Tentando aprender um pouco mais sobre o género verificamos que este é composto por 5 diferentes espécies e que cada uma destas pode estar dividida em muitíssimas populações. Isto acontece dada a grande disseminação do género ao longo de todo o Lago Tanganyika não existindo praticamente zonas do Lago onde estes peixes não ocorram. Isto é obviamente um grande ponto de interesse para o hobbie pois permite ter uma enorme variedade de peixes disponíveis que vão de encontro a todos os gostos e carteiras assim como de todo o tipo de aquário que pretenda simular o Lago Tanganyika. Existem espécies mais pequenas que facilmente podem ser albergadas num pequeno aquário de 60 centímetros. Outras existem que requerem mais espaço. Existem diferentes padrões e colorações e existem diferentes comportamentos ao nível da agressividade. Partindo deste pressuposto dificilmente não existe uma Julidochromis que se enquadre no gosto de qualquer ciclidófilo. Apenas há que saber identificar e escolher a espécie certa. E é aqui que surgem os problemas.
Dadas as semelhanças entre todas (ou quase todas) as espécies muitas vezes compramos gato por lebre. Não quer isto dizer que os lojistas o façam conscientemente. O problema está que muitas vezes também eles recebem os peixes mal identificados e depois por falta de conhecimento não conseguem eles próprios atribuir uma correcta identificação. Posto isto convém que sejamos nós, consumidores finais, capazes de identificar facilmente os espécimes expostos para que compremos de facto aquilo que procuramos.
Este é um problema de fundo que não diz respeito apenas ao género Julidochromis mas neste artigo é sobre este género que nos iremos debruçar.
Mais do que fazermos uma “birra” porque o lojista nos enganou, a escolha acertada da espécie é importante por diversos motivos e coloco à cabeça o problema da hibridação. Quantas vezes não temos necessidade de adquirir peixes para completar um casal ou um grupo de uma espécie que temos em casa? Várias vezes. E a compra da espécie correcta é importantíssima de forma a evitar complicações futuras ao nível da reprodução. Assim devemos sempre ter garantias do que temos em casa assim como do que estaremos a comprar no futuro.
O que este artigo visa é conseguir facilitar a todos os apaixonados por este género a identificação das respectivas espécies e com isto garantir que compramos sempre o que esperamos e teremos nas nossas casas peixes bem identificados e bem emparelhados.
As 5 espécies que compõem o género são:
- Julidochromis dickfeldi
- Julidochromis marlieri
- Julidochromis transcryptus
- Julidochromis regani
- Julidochromis ornatus
Julidochromis dickfeldi:
A espécie da polémica. E porquê? Porque é uma espécie manifestamente diferente de todas as outras e porque se assemelha em muito ao genero Challinochromis. Mais do que às suas parentes do genero Julidochromis. Acredita-se que dentro de algum tempo acabará por ser reclassificada. Esta espécie em termos de padrão acaba por ser semelhante à julidochromis ornatus nos seus traços principais. No entanto a forma do corpo, da boca e a sua coloração não deixam quaisquer dúvidas quando toca a distingui-las. É uma espécie relativamente pequena e belicosa quanto baste. Poderá ser mantida em casal ou em aquários comunitários com habitantes que suportem as suas investidas.
Resumo: riscas horizontais, sem risca por baixo do olhos, padrão que cobre apenas a metade superior do corpo, coloração completamente diferente das suas congenere e tamanho até 10cms.
Julidochromis marlieri:
Uma espécie de impor respeito. Conhecidas pelo seu mau feitio devem ser mantidas sozinhas ou em aquários muito espaçosos. Não atingindo as proporções de uma julidochromis regani chegam ainda assim a uns valentes 12/13cms que podem fazer muita mossa nos seus parceiros. Um pouco como todas as outras espécies de Julidochromis são intolerantes para com os do seu genero (outras Julidochromis indepentemente da espécie) pelo que num aquário apenas deve ser mantido um casal, estejam em comunitário ou não. Num comunitário devem ter reservada para si uma zona espaçosa composta por muitas rochas. A preferência recai sobre o xisto dado que facilmente vagueiam por entre as suas fendas. Depois de formado um casal qualquer outro animal é ferozmente expulso do território. Mais tarde os alevins ajudarão na tarefa de defender o espaço da familia. Quanto ao seu padrão é muitas vezes confudida com a julidochromis transcryptus (principalmente quando jovens) ssendo que nestas últimas a metade inferior do corpo não possui qualquer marca ao passo que nas julidochromis marlieri todo o corpo está coberto por uma bonita malha axadrezada que com o avançar da idade tende a evidenciar as riscas verticais. É no meu entender a mais bonita espécie do genero sendo que esta é apenas uma consideração pessoal. Também nesta espécie existem diversas populações que geram pequenas diferenças cromáticas.
Resumo: padrão axadrezado com incidência nas riscas verticais, risca por baixo do olhos, padrão que cobre todo o corpo e tamanho até 12/13cms.
Julidochromis transcryptus:
As pequenitas. As julidochromis transcryptus são as benjamins da familia. Mais pequenas e menos agressivas são, dentro do genero, a melhor escolha para aquários pequenos. As julidochromis transcryptus em pequenas confundem-se quando juvenis com as julidochromis marlieri pelo que todo o cuidado é pouco na sua compra dado que em adultas são espécies bastante diferentes a todos os níveis. Quase que se pode dizer que as julidochromis transcryptus são umas Julidochromismarlieiri em ponto pequeno e com a metade inferior do seu corpo sem qualquer padrão. Em pequenas são mais escuras e com o avançar do tempo tendem a ficar com as marcas brancas maiores ao contrário das julidochromis marlieri que intensificam os padrões escuros tornando-se em adultas relativamente fáceis de distinguir. Ao contrário de todas as outras Julidochromis com as julidochromis transcryptus, desde que tenhamos algum espaço, podemos arriscar a manter conchiculas não sendo ainda assim um sucesso garantido dado que disputam zonas semelhantes dentro do aquário o que pode levar a guerras, onde quase sempre, as Julies levam a melhor. Podemos assim afirmar que a julidochromis transcryptus é a ideal para quem se quer iniciar no genero e que tal como qualquer outra espécie do genero será com certeza uma mais valia no seu setup.
Resumo: padrão axadrezado com incidência nas riscas verticais, sem risca por baixo do olhos, padrão que cobre apenas a metade superior do corpo e tamanho até 8/9cms.
Julidochromis regani:
As “big girls” do genero. É a maior espécie da familia conseguindo superar as já robustas julidochromis marlieri. Existem relatos de julidochromis regani com cerca de 30cms no seu estado selvagem sendo portanto um bicho deveras imponente. Em aquário tendem a não passar dos 14/15 cms o que não deixa de ser uma marca de respeito. As julidochromis regani são por vezes confundidas com as julidochromis marlieri devido ao tamanho e robustez mas no entanto um olhar mais atento sobre o seu padrão facilmente permite a distinção. Nas julidochromis regani o padrão axadrezado/vertical das julidochromis marlieri é substituido por uma malha horizontal que cobre todo o corpo do peixe. As riscas longitudinais acompanham o corpo desde a boca até à barbatana caudal e encontram-se a todo a altura do corpo, ao contrário das julidochromis ornatus que apenas possuem tais riscas na metade superior do seu corpo. Consoante a população o aspecto das julidochromis regani pode também mudar bastante principalmente no que toca ao número e largura das riscas assim como à cor das barbatanas que podem atingir diversas tonalidades. São uma espécie muito interessante mas que devido ao seu tamanho e feitio não serve para qualquer aquário. A manutenção de um casal num aquário só para eles ou um aquário comunitário de grandes dimensões e com companheiros de médio/grande porte são as soluções possíveis sendo de evitar que se mantenham juntamente com conchiculas.
Resumo: riscas horizontais, risca por baixo do olhos, padrão que cobre todo o corpo e tamanho até 14/15cms.
Julidochromis ornatus:

As mal dispostas. Conhecidas pelo seu mau feitio estas meninas costumam ser bastante ariscas pese embora o seu pequeno porte. A par das J.transcryptus são das mais pequenas da família não querendo isso dizer que sejam propriamente dóceis. Não o são. Como em qualquer outra espécie ao generalizar-mos corremos óbvios riscos mas de facto das várias experiências que tenho tido conhecimento ao longo do tempo (pessoalmente nunca os mantive) são uma das espécies mais problemáticas visto serem bastante conflituosas inter e intra especificamente. Levando isto em conta devemos ter bastante cuidado na escolha de companheiros e montagem do respectivo setup para albergar estas terroristas. Esteticamente são de fácil distinção relativamente às outras espécies do género. Possuem riscas longitudinais muito bem delineadas não existindo qualquer margem de confusão visto que não existe qualquer indício de padrão vertical ou malha em todo o corpo. A metade inferior do corpo é totalmente lisa. A cor das barbatanas laterais pode variar mediante a população sendo que andará sempre em torno do amarelo ao passo que todas as outras tendem a ser debruadas a azul claro. Uma nota de referência para o facto desta espécie não dever nunca ser misturada em aquários com conchiculas pois será inevitável que se dêem guerras feias que podem ter consequências graves.
Resumo: riscas horizontais, sem risca por baixo do olhos, que cobre apenas a metade superior do corpo e tamanho até 10cms.
Expostas as diferenças e semelhanças entre as diferentes espécies deixo uma chamada de atenção que se prende com o facto de nunca em caso algum devemos misturar diferentes espécies de Julidochromis. Por maior que seja o aquário apenas uma e só uma espécie contida no género deverá fazer parte do setup.
Sendo um peixe relativamente tolerante em relação a outras espécies (excepção feita quando têm criar para cuidar) as Julies (como são carinhosamente conhecidas no hobbie) são peixes bastante agressivos para com indivíduos da mesma espécie e do mesmo género pelo que a sua mistura é de todo desaconselhável, para além do já referido problema de hibridação.
Aquando da aquisição das suas Julidochromis deverá ter em atenção que estes são peixes monogâmicos e que acasalam para a vida. De pouco vale comprar apenas dois peixes pois apenas por mera sorte acertamos no seu sexo e mesmo trazendo um macho e uma fêmea estamos longe de garantir que teremos um casal. Quer isto dizer que o ideal é comprar um casal já formado (é dificil encontrar casais à venda e pode não resultar pois mudaças de aquário ou de layout tendem a desfazer a harmonia do par) ou então adquirir sempre um pequeno grupo de 5 ou 6 individuos. Depois é deixar a Natureza actuar e esperar que se forme um casal devendo ser retirados os restantes individuos.
Espero que este artigo vos seja útil e acima de tudo que vos chame a atenção para a necessidade de sabermos sempre o que estamos a comprar sendo que devemos ter no mínimo a certeza quanto ao género e espécie e de preferência sabermos também a respectiva população quando esta existe. Este é um cuidado que deverá ser tido em conta na aquisição de qualquer peixe e não apenas no género Julidochromis.
Deixo um agradecimento a todos os que de alguma forma contribuíram para que este artigo fosse possível. São eles e por ordem alfabética: José Bentes, Nelson Mangana e Nuno Paiva.
Referências:
- Cichlid Forum, http://www.cichlid-forum.com
- Konings, Ad – Tanganyika Cichlids - Back to Nature (1998)