Quando temos um ciclideo africano doente, não raras vezes, estamos perante um enorme problema que afecta essencialmente os ciclideos dessa zona do globo, o mortífero Malawi Bloat.
Numa rápida pesquisa na internet, podemos encontrar várias formas de tratar o problema, e várias formas de o prevenir.
Mas, é aqui que começa a verdadeira questão deste artigo, em todas as pesquisas não temos nenhuma explicação concreta para a verdadeira origem deste problema, pelo menos com carácter científico, temos sim muitas suposições e essencialmente muita especulação.
O síndroma do Malawi Bloat é uma desordem que tem sido associada aos ciclideos africanos originários dos lagos do grande rift.
No entanto, tem aparecido relatos de casos, onde ciclideos de outras zona do globo apresentam sintomas que são em tudo semelhantes aos sintomas que associamos ao Malawi Bloat, o que nos leva a concluir que este problema não é exclusivo de uma determinada zona do globo, nem de um lago em particular.
Tal como tantas outras doenças detectadas em peixes tropicais, esta doença é descrita como "síndroma", que é uma outra forma de dizer, "não temos qualquer ideia quais são as causas dessa doença".
Infelizmente é uma situação recorrente com a grande maioria das doenças dos peixes tropicais, o desconhecimento. Sabemos que temos problema, mas não se sabe a Etiologia, isto é, a causa específica para esta desordem.
Mesmo com o desconhecimento da verdadeira Etiologia da doença, é muito comum, ter "certezas" quanto ao tratamento, pois de uma forma geral, quando um aquariofilista aplica um tratamento que resulta, assume como sendo essa a solução, pois funcionou.
No entanto, está provado que em muitos casos, ou o próprio organismo do peixe conseguiu combater a doença, ou era uma doença sem grande importância e de fácil resolução, sendo portanto esse tratamento inútil e não teve qualquer relação com a cura. Este é o que parece ser o caso do síndroma do Malawi Bloat.
A escassez científica relacionada ao estudo desta doença, em combinação com o elevado número de casos detectados, sugerem que existe existe uma necessidade real de determinar cientificamente as causas desta doença.
A melhor forma de aprofundar os conhecimentos de qualquer doença é caracterizar os sinais clínicos que fazem parte do diagnóstico da doença, determinar os potenciais factores de risco associados à doença, e por fim testar especificamente esses factores de risco usando métodos científicos.
Caracterização da doença:
Baseado na literatura disponível na internet e não só, os peixes afectados com esta doença apresentam vários sinais clínicos diferentes, mas os mais comuns são: Anorexia, Taquipneia, alterações fecais e distensão abdominal.
Anorexia: Pode ser causada por vários factores, como por exemplo, baixa temperatura, stress, alimentação desadequada, distúrbios gastrointestinais, Sepsis, parasitismo ou doença renal.
Taquipneia: Pode ser causada por vários factores, como por exemplo, stress, má oxigenação, bactérias ou parasitas nas guelras ou desordem no equilíbrio de fluidos.
Alterações fecais: Podem ser causadas por vários factores, como por exemplo, distúrbios gastrointestinais, Anorexia, desordem no equilíbrio de fluidos ou infecções causadas por bactérias ou parasitas.
Distensão abdominal: Pode ser causada por vários factores, como por exemplo, Ascite, disturbios na bexiga natatória, acumular de gases no trato gastrointestinal, insuficiência renal, Neoplasia ou desordem no equilíbrio de fluidos.
Neste ponto é de destacar que, a distensão abdominal é vulgarmente conhecida como Hidropsia ou "dropsy", uma doença de difícil cura, existindo inclusive vários medicamentos no mercado para o seu tratamento. No entanto, a Hidropsia não é uma doença, mas apenas um sinal clínico, por outras palavras, uma distensão da cavidade corporal devido ao acumular de fluidos.
Se uma pessoa for a um médico devido a um inchaço abdominal o medico não vai receitar um medicamento para retirar o inchaço, pois o problema a tratar, não é o inchaço (sinal clínico) mas sim uma doença bem mais grave que o está a originar. O médico vai sim, investigar a causa desse inchaço, receitando vários exames para a detectar, tal como a insuficiência cardíaca, doença no fígado ou doença renal.
Para se ter sucesso com o tratamento e com a cura deste síndroma do Malawi Bloat, tem de se ter o mesmo procedimento, e a mesma abordagem.
Temos de reconhecer que os sinais clínicos que vemos num peixe com Malawi Bloat, são apenas isso, sinais.
Para identificar a Etiologia da doença que afecta os peixes com Malawi Bloat, temos de ir atrás dos sinais clínicos identificados. Fazendo então, uma revisão aos sinais clínicos mais comuns associados ao Malawi Bloat, ficamos com a certeza que a causa da doença está relacionada com distúrbios no sistema gastrointestinal ou no sistema excretório (guelras e sistema renal).
O Sistema Gastrointestinal tem de ser equacionado, pois tudo o que possa afectar o trato gastrointestinal, pode provocar uma aumento de gases e fluidos no estômago e intestinos
O Sistema Excretório tem de ser equacionado, pois tudo o que possa afectar o sistema renal ou guelras, pode provocar um acumular de fluidos na cavidade corporal do peixe.
Estudos desenhados para avaliar estes sistemas nos peixes afectados com Malawi Bloat, seriam decisivos para que se possa compreender e caracterizar a Etiologia desta doença.
Factores de Risco
Além dos sinais clínicos é muito importante determinar os potenciais factores de risco, associados ao desenvolvimento deste síndroma e com isso identificar pistas seguras sobre o que realmente induz este síndroma no peixe e fazer uma correcta caracterização sobre quais são os sistemas afectados nos peixes que apresentam os sinais clínicos a que vulgarmente chamamos Malawi Bloat.
É possível que apenas um factor de risco esteja associado ao desenvolvimento do Malawi Bloat num determinado peixe ou espécie, e que em outros peixes ou em outras espécies sejam preciso vários factores de risco juntos para que o mesmo se suceda. Neste sentido podemos concluir que o porquê de ser ainda tão difícil identificar a etiologia desta doença
Fazendo uma analise à literatura disponível podemos chegar à conclusão que os factores de risco mais comuns associados ao Malawi Bloat são: Qualidade da água, Dieta, Doenças infecciosas (Protozoários e Bactérias).
Qualidade da água
Não é tanto uma causa principal, mas sim um forte contribuidor para o desenvolvimento do Malawi Bloat, e as razões para esta afirmação, são baseadas na epidemiologia do síndroma.
A doença está reportada em todo o mundo e as condições da água, como sabemos, variam muito de localização para localização, além do factor humano ser outro factor significativo para essa mesma qualidade e condições da água em aquário.
Dando como exemplo os ciclideos africanos, estes peixes preferem água com alta alcalinidade, um elevado ph, boa oxigenação e uma boa circulação de água, no entanto, nem todos que estão em cativeiro vivem nessas condições. No que diz respeito à qualidade da água em termos de filtragem ou das respectivas trocas parciais periódicas, essas diferenças são ainda mais significativas.
Uma deficiente parametrização da água para os ciclideos dos lagos do grande rift tem sido associado a esta doença.
Dieta
De uma forma geral, em todos os foruns, encontros, exposições onde estejam os grande aquariofilistas por esse mundo fora, este factor de risco é sempre apontado como o principal suspeito para este síndroma mortal. Nomeadamente os ciclideos herbívoros, estão liminarmente proibidos de terem uma alimentação rica em proteínas.
Facto é, que os ciclideos herbívoros usam bactérias benéficas para ajudar na digestão de componentes não digeríveis dos alimentos com base vegetal que são o seu principal alimento.
As bactérias usam a celulose como substrato para gerar ácidos gordos voláteis que servem de fonte de energia para o animal. Quando a flora microbiana do animal é alterada por este facto de risco (dieta) pode levar a alterações tal como uma produção elevada de gases no trato intestinal, bem como uma elevada retenção de fluidos ou pior ainda, Sepsia.
Os peixes Herbívoros são mais susceptíveis a problemas na regularização osmótica, quando são alimentados durante largos períodos com uma alimentação demasiado rica em proteínas, pois esse tipo de alimentação vai sobrecarregar os rins, podendo levar a uma insuficiência renal tendo efeitos muito negativos na Osmorregulação.
O resultado final é uma fatal retenção de fluidos, pois os animais afectados não conseguem mais excretar esses fluidos em excesso do seu organismo.
Doenças Infecciosas
Este é o terceiro factor de risco atrás mencionado, e não menos importante, pois pode levar à falência de orgãos, desencadeando o desenvolvimento do síndroma do Malawi Bloat.
De facto, para se poder ter ideias concretas sobre qual ou quais dos factores de risco é que estão mais associados ao síndroma e ao seu desenvolvimento nos animais afectados, é necessário diversos estudos experimentais de forma controlada que possam avaliar e testar cada um destes factores de risco.
Estudo prático ao factor de risco Dieta:
Foi criado um estudo pratico com uma espécie de ciclideo africano com tendências herbívoras como é o caso do Labeotropheus Fuelleborni, oferecendo uma dieta com base animal, isto é, rica em proteínas, e com isso conseguir determinar se é a dieta o principal factor de risco no desenvolvimento deste síndroma em peixes herbívoros, tal como é o pensamento da grande maioria dos aquariofilistas, um pouco por todo o mundo.
20 Labeotropheus Fuelleborni foram usados para este teste prático sendo todos adquiridos ao mesmo exportador de ciclideos africanos.
Os peixes foram colocados sem sexagem e aos pares em pequenos aquários (total de 10 aquários) com filtragem e oxigenação, temperatura nos 25º, sem qualquer substrato mas com rochas para abrigos, parâmetros de água adequados de forma a anular os outros factores de risco como a qualidade da água.
O factor de risco em teste é apenas a dieta.
Os aquários foram assinalados de forma aleatória com grupo 1 e grupo 2, formando 5 aquários do grupo 1 e 5 aquários do grupo 2.
Os do grupo 1 foram alimentados com alimentação de carácter vegetal exclusivamente, mais indicada à espécie em estudo, no entanto não é fácil encontrar no mercado pois a maioria dos alimentos ditos vegetais contêm vestígios de peixe ou invertebrados.
Os do grupo 2 foram alimentados com alimentação de carácter animal exclusivamente, mais concretamente Artêmia, nada indicada à espécie em questão, devido ao seu alto teor proteico.
Todos os peixes foram alimentados apenas uma vez ao dia com doses iguais cerca de 2% do seu peso corporal.
A duração do estudo estendia-se até ao surgimento dos sinais clínicos da doença ou até aos 6 meses de estudo.
O objectivo era que os peixes que apresentassem distensão abdominal ou anorexia fossem comparados com os peixes de controlo (os do grupo 1), cotonetes da cavidade celomática e do trato gastrointestinal dos peixes afectados seriam recolhidos para serem testados, usando técnicas padrão, como é o caso da Técnica de Gram.
As informações recolhidas seriam para determinar que alterações na microecologia do trato gastrointestinal ocorrem como desenvolvimento do síndroma do Malawi Bloat.
Resultados:
Então o que se sucedeu? ...Nada.
Nem sinais de qualquer tipo de doença clínica.
Os peixes dos dois grupos cresceram ao longo dos 6 meses de estudo de uma forma normal e saudável.
O que este resultado nos diz?
A primeira coisa a fazer é não especular em demasia sobre estes resultados. Para os iniciados, o estudo mostra que para esta espécie em particular uma dieta rica em proteínas de animais não induz à doença ao fim de 6 meses. Poderia induzir à doença se o estudo fosse durante mais tempo? Possível, mas pouco provável. Poderia uma diferente fonte de proteína induzir à doença nesses 6 meses? Possível ... uma dieta exclusivamente à base de coração de boi poderia ter outro tipo de efeito nos peixes em estudo, por exemplo.
O que precisamos de reconhecer desde já, é que este tipo de estudos são demasiado limitados para se obter uma resposta definitiva a todas as questões que temos para fazer.
Seria necessário fazer testes com outras fontes de proteínas a esta e a outras espécies de ciclideos herbívoros, para mais conclusões.
O estudo ao factor de risco dieta, em cima descrito é apenas um dos muitos estudos necessários para identificar a verdadeira Etiologia deste síndroma. Mais estudos rigorosos aos restantes factores de risco também serão decisivos para a busca da verdadeira Etiologia.
O facto de nenhum peixe em estudo apresentar qualquer sinal ou sintoma da doença, não quer dizer que o mesmo não foi produtivo, pelo contrário, mostra que nem todos os ciclideos herbívoros quando alimentados pela mesma fonte de proteína irão desenvolver a doença.
O que anteriormente era visto como um facto, isto é, ciclideos herbívoros a alimentarem-se de alimento com alto teor de proteínas irão desenvolver Malawi Bloat, foi desmantelado, pelo menos por uma espécie e com uma fonte de proteínas.
Etiologia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Etiologia
Taquipneia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Taquipneia
Sépsis: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sepse
Ascite: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ascite
Neoplasia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Neoplasma
Hidropsia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hidropisia
Protozoário: http://pt.wikipedia.org/wiki/Protozo%C3%A1rio
Epidemiologia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Epidemiologia
Síndroma: http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome
Cavidade Celomatica: http://pt.wikipedia.org/wiki/Celoma
Técnica de Gram: http://pt.wikipedia.org/wiki/T%C3%A9cnica_de_Gram