Quase todos nós, amantes dos ciclideos africanos já alguma vez ouvimos falar de tropheus e já vimos fotografias espectaculares destes animais.
Aqui à uns meses atrás decidi que já chegava de ver fotografias e embarquei na aventura de pesquisar e tentar saber mais sobre os tropheus, com o objectivo ultimo de os manter num dos meus aquários aqui em casa.
Este artigo é o resultado dessas pesquisas, de perguntas e respostas e da contribuição de muita gente que me foi dando um pouco do seu saber e mestria e aos quais devo agradecer.
Deixo ainda um agradecimento especial ao Eduardo Telles Santos pelas suas respostas no forum de aquariofilia e pela autorização em as transcrever para aqui.
Sem mais demoras, comecemos então.
Primeiro embate
O primeiro embate de um noviço em tropheus é negativo. Lêem-se relatos de colónias inteiras perdidas da noite para o dia, de peixes que se atacam sem dó nem piedade, de criadores à beira de um ataque de nervos.
Depois, com a continuação dos estudos, começa-se a perceber que estes relatos são efectivamente reais, mas não inevitáveis. E começa-se a perceber também que afinal de contas o tropheus é um peixe bastante exigente e com um comportamento marcado. Afinal de contas um tropheus é um ciclideo, briguento e territorial como é normal nos ciclideos, mas também sensivel a alimentações erradas e a stress em demasia.
Primeiras (in)decisões – o aquário
Uma das primeiras (in)decisões que um pretendente a dono de tropheus enfrenta prende-se com o tamanho minimo aceitável para um aquário.
Segundo as minhas pesquisas o tamanho minimo dos minimos para adultos será sempre um aquário com 120 cm de frente.
Verificando em sites estrangeiros, especialmente americanos, eles usam aquários de 240L para colónias de tropheus o que me levou a pensar que se poderiam usar aquários com 100cm de frente mas pesquisas mais aprofundadas revelaram que se tratam efectivamente de aquários sempre com pelo menos 120cm de frente.
Assim, um aquário de 120cm será o minimo, um de 150cm aceitável e um de 200cm ou superior o mais indicado.
Tentando perceber um pouco do porquê dos 120cm descobri um artigo do mestre Ad konings que referia que um macho duboisi dominante reclama para si uma área com entre 60 a 70cm de diâmetro. Ora se tivermos 2 machos dominantes teremos de imediato duas áreas de 60 cm, logo os tais 120cm de frente e isto por si só já é justificação suficiente. Mas ao que parece os 20cm extra em relação aos aquários de 100cm podem ser o suficiente para que um peixe perseguido se consiga escapar ao perseguidor, evitando ferimentos.
Quantos peixes?
Outra das (in)decisões é quanto ao número de peixes a ter. O tropheus é um peixe normalmente caro e daí a primeira reacção é querer comprar só um ou dois até por medo de morrerem.
Nada mais errado. O tropheus é um peixe de harem e como tal deve existir um macho e diversas fêmeas.
O facto de ser um peixe agressivo, de ter uma estrutura hierarquica e social muito fechada e de adições posteriores virem a abalar essa estrutura causando lutas pela hierarquia faz com que os peixes devam ser todos adicionados ao mesmo tempo e que a adição posterior de um ou dois individuos resulte normalmente na morte dos recem-chegados.
Segundo relatos que li, é possivel adicionar mais peixes quando os tropheus ainda são juvenis, ou se forem um grupo alargado mas o risco de perturbação de uma hierarquia existe sempre. A adição em juvenis é a que apresenta menos problemas potenciais pois os jovens não terão ainda os instintos apurados dos adultos, sendo mais permissivos.
A introdução da colónia completa logo no inicio permite também a convivencia um pouco mais pacifica entre machos dominantes e dominados, embora o risco de agressão não desapareça totalmente.
E quantos tropheus então? Aqui as opiniões divergem em função do tamanho das bolsas e da facilidade de se encontrar a espécie que se quer. Diria que o minimo dos minimos seriam 10 exemplares, para que se possa ter um rácio machos/fêmeas seguro e para que a morte de algum peixe não perturbe demasiado o rácio.
Já vi aconselhado em sites valores que vão desde os 12 aos 30 peixes, acho que realmente depende da bolsa de cada um. Agora é certo que, como quase todos os ciclideos africanos, uma quantidade elevada de exemplares ajuda a distribuir as agressões, evitando o massacre de um peixe apenas.
Que espécie? Qual a mais calma?
De uma forma geral todas as espécies são agressivas, todas são sensiveis e todas geram macho dominantes.
A opinião geral parece apontar no sentido do grupo brichardi ser o mais violento e exigente. Dentro dos restantes tudo pode acontecer. Segundo o que li, sp red e moorii parecem gerar mais vezes machos hiperdominantes, os sp black são os mais irrequietos e briguentos mas também os melhores reprodutores e os duboisi estarão no meio termo.
De uma forma geral, de peixes com uma personalidade forte tudo pode acontecer e tudo de pode esperar, pois tanto podem ser uns anjos como uns diabinhos.
O conselho que mais tenho visto é: “escolhe os que te agradarem mais, pois são todos bem exigentes”
Como decoro?
Uma pergunta complexa, sem resposta clara e definitiva. A decoração de um aquário de tropheus consiste basicamente em pedra. Sendo territoriais as pedras irão funcionar como marcos de território e serão defendidas com algum vigor. Alguns criadores preferem por isso usar aquários nus de forma a limitar um pouco a agressividade.
Para quem como eu não gosta do aspecto de um aquário nu existem sempre opções por fundos 3d, paredes de rocha ou monticulos de pedras.
As paredes corridas de pedra parecem ser mais propicias ao aparecimento de machos hiperdominantes, mas isso não é um facto comprovado. Ao darmos a hipotese de se estabelecerem territórios estamos a atrair um comportamento natural nos nossos peixes com tudo de bom e de mau que isso acarreta.
Algumas pessoas não gostam de jardins de pedra e preferem sempre colocar umas plantinhas. Também aqui não há consenso sobre que tipo de plantas resistem a estes herbivoros, pois há quem tenha tropheus que até as plantas de plástico atacam!
Pessoalmente, prefiro apostar em iluminação e fertilização para criar algas, pois tenho usado esse metodo no meu aquário de mbunas com algum sucesso.
E agora a pergunta milionária... como manter e o que esperar?
Para começar a responder à parte do que esperar nada melhor que as palavras do Eduardo:
“De tudo o que tenho lido e da experiência que tenho tido, o comportamento dos Tropheus é muito peculiar quando em grupo unifamiliar.
Normalmente o dominante defende um local, que sendo dentro de um aquário por vezes é o aquário todo, mas o mesmo é ajudado por uma hierarquia bem definida e daí se conseguir a estabilidade.
No entanto, não é raro observar o dominante ser desafiado por outro macho e aqui podem acontecer dois cenários, ou o desafiante é ajudado pelos restantes ou um grupo dos restantes e logo se vê quem ganha, ou o dominante é ajudado pelos restantes elementos do grupo (menos comum).
Raramente uma luta entre Tropheus é apenas entre dois peixes, mas sim entre grupos com um lider definido, (por engraçado que possa parecer este comportamento tem sido referenciado por vários autores como normal dentro do aquário. Não nos podemos esquecer também que devemos relativizar estes comportamentos ao tamanho do aquário e ao número de individuos lá dentro. Num aquário com 2 tropheus nunca haverá grupos) e não é estranho que no meio da confusão, um dos elementos dentro de um destes grupos e não necessariamente o desafiante ou o desafiado, aproveite a confusão e a oportunidade e acaba por se tornar o dominante.
São este tipo de comportamentos que tornam a familia dos Tropheus tão interessante e que tantas paixões desperte. “
Em relação à manutenção mais uma vez o Eduardo nos presenteia com um manual de sobrevivencia:
”Vou enumerar aqui alguns dos factores que considero dos mais importantes na manutenção dos Tropheus.
Aqui vai e sem nenhuma ordem em especial:
Alimentação (MUITO IMPORTANTE) - Os Tropheus são animais quase exclusivamente vegetarianos, tendo um dos tratos digestivos dos mais compridos de todos os ciclideos sendo batido por muito poucos, talvez pelo Spathodus erythrodon que é o ciclídeo com o trato digestivo mais longo, motivo pelo qual deve ser alimentado com uma alimentação à base de vegetais. No entanto para melhor sucesso devemos variar a ração que damos aos nossos peixes, (inguém gosta nem é saudável comer bife com batatas fritas todas as refeições) variar a marca da ração e adicionar todo o tipo de animais plantónicos (Krill, Mysis, Cyclops e Plankton) congelados!! NUNCA POUPEM NA QUALIDADE DA ALIMENTAÇÃO DOS VOSSOS TROPHEUS!!!!!!
Quimica da água (MUITO IMPORTANTE) - Os Tropheus são particularmente sensiveis à quimica da água, não bastando um pH alto (que se recomenda acima dos 8,2º até aos 9,0º) que sendo um factor importante é dos menos importantes na quimica dos aquários de biótopo Tanganyika. A água do Tanganyika é a que quimicamente mais se aproxima da água do mar, havendo elementos importantes que estão presentes em concentrações muito próximas das do mar, e que aparecem apenas como elementos traço na água dos restantes lagos. É importante desta forma escolher um bom aditivo para simular a água do lago, não bastando os Cichlid Buffers à venda no mercado que apenas juntam compostos carbonatados à água do aquário provocando desiquilibrios com o resto. Eu costumo adicionar ao aquário suplementos de água salgada além de uma mistura feita por mim. Não vou falar em marcas pelos motivos óbvios!!!
Dos suplementos que adiciono sublinho os seguintes:
- Iodo (doses muito pequenas)
- Ferro para aquários marinhos - em conjunto com o Iodo estimula o crescimento de micro algas que se fixam na decoração e que são um suplemento importante na alimentação.
- Magnésio
- Estrôncio
- Molibdénio
- Trace Elements
Além da tal mistura que falei e cuja receita é de familia e secreta!! Não me levem a mal!!!
Corrente da água - A água do lago Tanganyika devido ao facto de ter uma ondulação bastante forte, quase igual a um recife de coral, leva a que os Tropheus tenham evoluído numa forma que os leve a preferir zonas mais movimentadas, que são igualmente as zonas mais oxigenadas devido à rebentação. Assim este é um factor importante num aquário de Tropheus, uma boa corrente!!! Podemos pensar à vontade até 10x o volume do aquário por hora sem problemas para circulação interna, preferencialmente com as bombas a fazer oxigenação.
Oxigenação da água - Devido ao dito em cima, e pensando onde vivem os Tropheus, em profundidades baixas até 20 metros geralmente, sendo o normal os 3 a 5 metros junto à praia, onde a rebentação faz aumentar brutalmente a oxigenação da água! Esta oxigenação leva a que estas zonas do lago tenham menos CO2 dissolvido na água o que leva a um pH mais alto do que nas zonas mais interiores do lago. Ora tendo os Tropheus evoluído nestas águas é natural que se sintam melhor em condições identicas. “
Notas Finais
E basicamente é isto o resumo de vários meses de procura pela internet, leitura de sites e busca de conhecimento.
Por abordar ficou o famigerado bloat pois esse problema é quase um artigo só por si. Talvez para uma próxima oportunidade, esperando eu é claro que o artigo não resulte da minha experiencia pessoal, ou que resultando seja o ralato de um caso de sucesso.
Pretendo vir a criar estes belos animais, por isso talvez me divirta a pesquizar um pouco mais noutros campos relacionados e a descrever os mesmos em artigos. O futuro o dirá.
Resta agradecer a todos a paciencia para lerem este artigo até ao fim e mostrar a minha disponibilidade para alterações e acrescentos que considerem relevantes.
Referências: