Introdução:
A minha viagem neste mundo da aquariofilia, e com os Corydoras começou no final da década de oitenta, quando junto com o meu irmão recebemos o nosso primeiro aquário. Lembro-me que comecei como a generalidade das pessoas naquela altura, ou seja, com alguns dos vários peixes mais comuns nas lojas do Porto, entre os quais um Corydoras paleatus e mais tarde três Corydoras aeneus. Cometi muitos dos vários erros característicos de um principiante, pois na altura o acesso à informação não era como o de hoje em dia. Não obstante, penso que poderia ter-me aconselhado e informado mais acerca destes peixes. De facto, quando não estamos minimamente informados, quem irá sofrer mais com isso serão sempre os seres vivos que iremos manter. O ideal será sempre procurarmos proporcionar as condições óptimas, para que possamos ter em nossas casas, aquários com um habitat em tudo favorável aos peixes que iremos adquirir.
Nesta pequena viagem irei-me debruçar acerca destes belos animais de cardume que vivem remexendo a areia dos aquários procurando comida, ou seja, os Corydoras. Ao longo deste pequeno artigo irei fazer uma pequena abordagem generalista acerca deste género de peixes, aproveitando revisões bibliográficas, experiências de outros aquariofilistas, e, claro a minha experiência pessoal. Esta viagem irá relatar sumariamente aqui no presente artigo algumas informações que podem ser um ponto de partida para quem pretende conhecer, e mais tarde adquirir estes maravilhosos seres vivos. Aconselho, no entanto, qualquer aquariófilo que pretenda manter Corydoras nos seus aquários, a informar-se concretamente acerca da espécie em questão, pois cada espécie tem as suas características específicas, e, muitas das coisas que serão aqui mencionadas, poderão não se aplicar às mesmas. Serve portanto esta viagem, como um ponto de partida para nos juntarmos ao “cardume” destes nossos pequenos amigos e conhecermos um pouco mais sobre eles.

Corydoras paleatus
Corydoras:
1 - Classificação:
O nome científico de Corydoras deriva do facto destes peixes serem reconhecidos por terem a pele coberta por duas filas de grandes escamas ósseas. Cory significa capacete e doras significa pele. São também facilmente reconhecidos por apresentarem a cabeça lateralmente comprimida, barbilhões curtos e na barbatana dorsal entre 6 a 8 duros raios. Estes peixes, também conhecidos por peixes gato e “limpa fundos”, pertencem à ordem dos Siluriformes, e, dentro desta, enquadram-se na família dos Calictideos (Callichthyidae), sendo esta composta por cerca de 195 espécies que podem ser encontradas em regiões da América central e do sul. Esta família é dividida em duas subfamilias (Corydoradinae e Callichthyinae). Os Corydoras, Scleromystax e Aspidoras compõem os três géneros da subfamilia doscorydoradinae. O primeiro grupo referido é composto por cerca de 150 espécies pertencem ao género Corydoras, existindo ainda bastantes mais por classificar.

Corydoras panda
2 - Fisionomia / Anatomia:
Os Corydoras são na sua grande maioria peixes pequenos, não excedendo normalmente os 7 / 8 cm. Possuem um eficaz sistema de defesa pois o seu corpo é totalmente coberto por placas ósseas, e, as barbatanas peitorais e dorsais têm o primeiro raio dividido em espinhos fortes, os quais são uma excelente protecção contra o ataque de potenciais predadores. Possuem, tal como os caracídeos, uma barbatana adiposa no dorso, entre a barbatana caudal e dorsal. Tem a boca orientada para o solo, factor este que normalmente indica qual o nível de profundidade que um peixe habita. Todavia, muitas espécies com estas características podem não ser exclusivamente frequentadoras do fundo. São peixes que possuem uma camada muito fina, ou mesmo ausente, de muco epitelial externo e, por isso, a presença de sal na água pode levá-los à morte por desidratação. Este facto deve-se à grande diferença osmótica que irá ser criada. Outro facto curioso acerca deste animal, deve-se à sua capacidade de respirar o ar atmosférico. Para além da respiração branquial típica dos peixes, os corydoras têm um mecanismo assistente de respiração, que consiste numa modificação de uma parte do seu aparelho digestivo, mais concretamente a partir do seu intestino que é altamente vascularizado. Esta zona é bem irrigada, e, os vasos sanguíneos podem assimilar, de forma semelhante ao que acontece nos pulmões, o oxigénio atmosférico. Trata-se de uma forma de respiração intestinal, isto é, o oxigénio aspirado quando vão à superfície da água, entra no sangue através dos vasos sanguíneos existentes na parede do intestino. Esta adaptação pode permitir que os corydoras sobrevivam caso o habitat em que vivem se torne pobre em oxigénio (O2) por algum motivo. Este sistema possibilita que respirem em águas estagnadas ou com concentração de (O2) muito baixas. Se observarmos bem estes peixes, iremos verificar que regularmente sobem regularmente à superfície para engolir ar fresco e oxigenado. Não podemos concluir com isto que sobrevivam sempre numa água pobre em oxigénio, e, como tal, não devemos descurar de lhes possibilitar um aquário com água de qualidade e oxigenada, bem como com as condições apropriadas à especificidade de cada espécie.
Relativamente ao dimorfismo sexual, será mais fácil distinguir os sexos observando-as de cima. A fêmea, para além de normalmente ser maior, costuma ter o ventre um pouco mais largo e arredondado que o macho. A esperança de vida deste peixe costuma rondar entre os 8 e 10 anos.

Corydoras sterbai
3 - Biótopo:
No concerne ao habitat, os Corydoras podem-se encontrar no Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Guiana Francesa, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai, Trindade e Tobago e Venezuela. Isto significa que a diversidade de biótopos onde os podemos encontrar é tão grande que existe espécies de Corydoras a viver em águas com o pH bastante ácido, e, noutros locais com pH superior a 7.5, com diversas temperaturas. Devido a estes factos o biótopo destes nossos amigos de barbatanas, pode variar desde rios, lagos, lagoas, pântanos e até em locais de água doce junto ao mar. Como tal, as águas podem ser turvas ou mais transparentes, cuja profundidade pode ir desde 20 centímetros até locais com mais de 2 metros. Poderão ser observados a viver em faixas de temperatura entre 17ºC e 28ºC. Todas as espécies deste género são de água doce e têm, no geral, uma tolerância muito limitada ao sal. Consoante a espécie em questão, a tolerância à variação de todos os parâmetros anteriormente referidos pode diferir.
4 - Comportamento:
Quanto ao comportamento, os Corydoras são geralmente muito activos e gregários, isto é, preferem viver em cardumes. Podemos encontrar num mesmo habitat várias espécies diferentes de Corydoras a compartilha-lo, e, inclusive a formar um único cardume. São peixes pacíficos e de muito boa sociabilidade entre eles e com outros peixes. Sentem-se melhor em grupo. O facto de se juntarem em cardume permite a estes peixes maior segurança contra ataques de potenciais predadores. Normalmente ignoram todos os peixes que não sejam estes últimos referidos. Possuem o hábito de remexer o fundo em busca de alimento na sua actividade diária, que, contrariamente a muitos outros peixes gato, apesar de também ser diurna é predominantemente nocturna. Normalmente, a maioria das espécies de corydoras passam a maior parte do tempo junto ao fundo, mas, por outro lado, existem outras espécies que passam mais momentos afastados do solo, relativamente à generalidade, como é o caso dos Corydoras elegans e dos Corydoras napoensis. Alguns pequenos Corydoras, tais como os Corydoras pygmaeus e os Corydoras hastatus são mesmo considerados nadadores de meia água.

Corydoras trilineatus
5 - Alimentação:
No que se refere à sua alimentação, os Corydoras gostam de alimentos ricos em proteínas animais, pois são micro-predadores. Na natureza alimentam-se principalmente de pequenos animais, tais como, vermes, micro-crustáceos, larvas de mosquito, insectos, ovos, moluscos, etc. Eventualmente, há quem diga que aproveitam algumas algas e vegetais, embora estes não sejam a base da sua alimentação. Com os seus barbilhões fortes que possuem na extremidade da boca, remexem a areia, e, através do toque e do odor, procuram alimento. Muitas vezes é encontrado nos estômagos destes peixes alguma quantidade de areia, que é resultado da ingestão da mesma juntamente com os alimentos.

6 - Reprodução:
Neste capítulo, e, como tudo o que foi referido anteriormente, estamos dependentes da espécie em questão. Não convém generalizar, e, fazer uma “receita” única, que utilizaríamos como milagrosa e eficaz! Tentaremos aqui, referir alguns aspectos da reprodução de algumas das espécies mais comuns nos aquários. Na maioria das espécies, o período reprodutivo dá-se no inicio da estação chuvosa. Algumas, porém, apresentam alguma actividade reprodutiva durante todo o ano. Na natureza, para além dos espinhos e das placas ósseas duras que desencoraja alguns potenciais predadores, os Corydoras conseguem passar despercebidos a muitos peixes grandes devido ao seu reduzido tamanho, e, com isto ter uma maior probabilidade de sucesso reprodutivo. Frequentemente a postura é feita sobre uma superfície lisa e plana, como folhas, pedras, etc. Após o ritual de acasalamento, os ovos (o número varia consoante a espécie, pode ir aos 100) solidificam após a fecundação do macho. A fêmea utiliza as barbatanas ventrais para colar o ovo (3 a 5 dias para eclodir) numa superfície previamente limpa. Os adultos não cuidam dos alevinos nascidos nem protegem os ovos.
Em aquário, existem inúmeras formas de induzir e tentar a reprodução destes peixes, recomenda-se os Corydoras aeneus e os Corydoras paleatus para quem se quer iniciar neste capítulo, pois são espécies com uma taxa de sucesso bastante elevada em relação a muitas outras. O aquário de reprodução não precisa de ser muito grande, costuma-se utilizar aquários a partir de 30/40 litros não muito altos, com um ambiente sombreado, algumas plantas e esconderijos com areia fina e arredondada (sem pontas cortantes). Embora também se possa utilizar aquários sem qualquer tipo de substrato no fundo do mesmo. O melhor é manter uma proporção de 2 machos por cada fêmea, e, em pequenos grupos de 6 a 10 peixes. Posto isto, deve-se dar alimentação de qualidade (alimento vivo também) e variar o mais possível a mesma. Muitas vezes leva-se as fêmeas a desovar, com algumas mudanças de 40% da água (levemente mais fria que a do aquário), aumentando um pouco a filtragem criando uma ligeira corrente, e, repetindo este procedimento durante alguns dias. Os ovos são depositados numa superfície lisa, e, os adultos tendo oportunidade irão comer os mesmos, por isso devem ser separados destes após a sua fecundação. Três a cinco dias após a eclosão, os alevinos irão consumir o saco vitelino, e, nos dias seguintes podem ser alimentados com infusórios, artémia, micro vermes e rações especificas. Recomenda-se, que no aquário de crescimento, se utilize um filtro de esponja ou então uma meia de vidro colocada na entrada do filtro para os jovens peixes não serem sugados. O caudal do filtro também não deve ser muito forte, e, deve-se baixar o nível da água para os 10 cm de altura, pois os recém-nascidos irão tentar respirar o ar atmosférico, como é característico da espécie. Após alguns meses os filhotes crescem consideravelmente, e, poderemos juntá-los com os restantes adultos do grupo.
7 - Aquário:
No que concerne ao tanque em que iremos manter estes nossos amigos, e, caso o objectivo seja mantê-los com outras espécies de peixes, ou seja, num aquário comunitário, aconselhamos a adquirir um com pelo menos 1 metro de frente e com a capacidade de 100 litros, pois este peixes são bons nadadores e gostam de se movimentar. Quanto maior for o aquário em comprimento e largura, melhor para os peixes. Pessoalmente, procuro nunca ter menos de 6 / 8 Corydoras da mesma espécie num aquário comunitário, inclusive tento manter sempre acima de 20, nem que sejam de espécies diferentes, pois a beleza que proporcionam ao nadarem juntos é fabulosa, e, acabam por se mostrar muito mais, e, estar mais protegidos contra as investidas de outros peixes. Devemos, então, ter em conta os outros companheiros que irão fazer parte deste tanque, pois peixes muito grandes poderão tentar engolir os nossos pequenos amigos, e, inclusive, este facto poderá resultar na morte dos dois devido aos espinhos afiados que possuem os Corydoras que podem provocar ferimentos na boca dos predadores. Existem relatos de alguns casos e situações em que os Corydoras ficaram presos na boca de predadores, e, este facto levou à morte dos dois.
Quanto à decoração do aquário, no geral, deve ter várias zonas com plantas, troncos, pedras e esconderijos e outras zonas com espaço para nadarem. O substrato utilizado num aquário em que iremos manter Corydoras deve ser fino, e, ter bordas arredondadas, pois estes “nossos” seres vivos gostam de vaguear pelo fundo enterrando-se na areia em busca de alimento. No que se refere à iluminação, esta não deve ser muito forte, e, pode-se utilizar zonas com sombras provocadas por plantas e outros elementos de decoração, e, mesmo algumas plantas de superfície. Mais uma vez, estes factores dependem muito das espécies que iremos escolher para manter. Por exemplo, quando montamos um aquário de biótopo com espécies de Corydoras do Amazonas, devemos ir ao encontro dos seus locais preferidos, que normalmente são leitos pouco profundos dos rios e riachos com imensas ramificações das diversas vegetações que por lá se encontram. Apesar da ampla faixa de PH e GH que podemos encontrar em diferentes biótopos, neste último caso a água deverá ser mais ácida e mole. O importante é informarmo-nos adequadamente acerca das condições que estes peixes necessitam, bem como, acerca dos seus companheiros de aquário. Na altura da alimentação, convém verificarmos se a mesma chega ao fundo antes que outros peixes a comam. É importante variar e fornecer alimentação adequada aos peixes que mantemos, pois existe no mercado várias marcas de comida, com embalagens que contêm os nutrientes necessários às diversas espécies de animais que se comercializam.
8 - Comentários finais:
Espero que esta pequena viagem pelo mundo dos Corydoras tenha servido para ajudar o leitor a conhecer um pouco mais sobre este género de peixes, e que, dessa forma, lhe propicie um ponto de partida para a procura de mais informação. Relembro que todas as temáticas aqui abordadas tem por base quer a minha experiência pessoal, quer as de outros aquariofilistas, experiências essas vividas ao longo de muitos anos com diversas espécies de Corydoras. Acresce ainda toda uma vasta revisão bibliográfica que efectuei com vista à produção deste artigo. Claro está, que este pequeno texto é muito generalista e, como tal, necessita de ser complementado com as informações específicas das mais variadíssimas espécies que existem. Assim sendo, e tendo como objectivo proporcionar uma vida adequada a estes peixes, obtendo sucesso na manutenção dos mesmos, aconselho a manter-se actualizado e informado, e, que para tal, procure ler todo o tipo de livros, artigos, revistas, sites com informações na internet, documentários, etc.
Boas viagens…Introdução:
Bibliografia:
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http://www.corydorasworld.com
http://www.drpez.net
http://www.microcosmaquariumexplorer.com
http://www.planetcatfish.com
http://www.scotcat.com